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Pressão arterial: o inimigo silencioso que a maioria das pessoas ignora até ser tarde

 Pressão arterial: o inimigo silencioso que a maioria das pessoas ignora até ser tarde

 


Hipertensão arterial tem um apelido que resume tudo o que precisa ser dito sobre ela: assassina silenciosa. Não dói. Não avisa. Não aparece no espelho. Não impede você de ir trabalhar, de fazer suas atividades, de achar que está bem.

E enquanto isso, em silêncio, vai danificando artérias, sobrecarregando o coração, comprometendo os rins e o cérebro — até que alguma coisa quebra de forma que não pode mais ser ignorada.

No Brasil, estima-se que cerca de 38% dos adultos tenham hipertensão. Desses, uma parcela significativa não sabe que tem. E entre os que sabem, muitos não tratam adequadamente. Os números explicam por que doenças cardiovasculares seguem sendo a principal causa de morte no país.

O que é pressão arterial e o que os números significam

Pressão arterial é a força que o sangue exerce contra as paredes das artérias ao ser bombeado pelo coração. Ela é medida em dois valores: o primeiro, chamado de sistólico ou "máxima", corresponde à pressão no momento em que o coração se contrai e bombeia o sangue. O segundo, diastólico ou "mínima", corresponde à pressão no momento de relaxamento entre os batimentos.

Os valores são expressos em milímetros de mercúrio — mmHg. Uma pressão de 120/80 mmHg é considerada o referencial de normalidade. Valores consistentemente acima de 140/90 mmHg configuram hipertensão arterial segundo as diretrizes médicas atuais — embora os limiares variem ligeiramente conforme a diretriz e o contexto clínico do paciente.

Entre esses dois extremos existe uma zona chamada de pré-hipertensão ou pressão elevada — valores entre 130/80 e 139/89 mmHg — que já indica risco aumentado e merece atenção e mudanças de hábito, mesmo que ainda não exija medicação na maioria dos casos.

Por que tanta gente não sabe que tem

A ausência de sintomas é a principal razão pela qual a hipertensão passa despercebida por tanto tempo. Ao contrário do que muita gente imagina, pressão alta não causa dor de cabeça na maioria dos casos — essa associação popular é imprecisa. Também não causa tontura, rubor no rosto ou qualquer sintoma consistente que pudesse funcionar como sinal de alerta no dia a dia.

Os sintomas, quando aparecem, geralmente indicam que a hipertensão já está em estágio avançado ou que está causando danos a órgãos — e aí o quadro é muito mais grave do que seria se tivesse sido detectado antes.

Some a isso o fato de que muitas pessoas simplesmente não medem a pressão com regularidade. Vão ao médico apenas quando estão doentes, não têm aparelho em casa e não incluem a verificação da pressão arterial na rotina de autocuidado. Anos podem passar sem que o problema seja identificado.

Quem tem mais risco

Alguns fatores aumentam significativamente o risco de desenvolver hipertensão — e conhecê-los ajuda a saber quem precisa de monitoramento mais frequente.

Histórico familiar é um dos preditores mais fortes. Hipertensão tem componente genético relevante — filhos de hipertensos têm risco aumentado de desenvolver a condição, especialmente se outros fatores de risco estiverem presentes.

Idade é outro fator relevante. A rigidez progressiva das artérias com o envelhecimento contribui para o aumento da pressão. A prevalência de hipertensão cresce de forma significativa a partir dos 40 anos e é muito alta acima dos 60.

Excesso de peso sobrecarrega o sistema cardiovascular e está fortemente associado à hipertensão. A redução de peso é uma das intervenções com maior impacto sobre a pressão arterial em pessoas com sobrepeso.

Consumo excessivo de sódio — principalmente através de alimentos ultraprocessados, embutidos, conservas e temperos industrializados — contribui diretamente para o aumento da pressão em pessoas com sensibilidade ao sal, que são mais comuns do que se imagina.

Sedentarismotabagismoconsumo excessivo de álcool e estresse crônico completam o quadro dos principais fatores de risco modificáveis — aqueles que dependem de comportamento e que, portanto, podem ser mudados.

Os danos que acontecem em silêncio

Enquanto a hipertensão não diagnosticada segue seu curso, os danos se acumulam de forma progressiva em vários sistemas do organismo.

As artérias, submetidas a uma pressão constante acima do normal, perdem elasticidade e ficam mais suscetíveis à formação de placas de gordura — o que aumenta o risco de infarto e AVC. O coração, forçado a trabalhar mais para vencer a resistência das artérias, aumenta de tamanho e pode desenvolver insuficiência cardíaca ao longo dos anos. Os rins, que dependem de pressão adequada para filtrar o sangue, são danificados progressivamente pela hipertensão não controlada — sendo esta uma das principais causas de insuficiência renal crônica no Brasil. A visão também pode ser comprometida, com danos aos vasos da retina que, em casos graves, levam à perda visual.

Tudo isso sem um único sintoma que avise que está acontecendo.

O que é possível fazer

Medir a pressão regularmente é o ponto de partida. A recomendação geral para adultos saudáveis é verificar a pressão pelo menos uma vez por ano. Para quem tem fatores de risco ou histórico familiar, a frequência deve ser maior. Aparelhos de pressão automáticos de braço estão disponíveis em farmácias a preços acessíveis e são confiáveis quando usados corretamente.

Reduzir o sódio na alimentação tem impacto mensurável sobre a pressão arterial. Isso significa principalmente reduzir ultraprocessados, embutidos e o hábito de adicionar sal às refeições já prontas — e não necessariamente eliminar completamente o tempero das preparações caseiras.

Atividade física regular tem efeito anti-hipertensivo comprovado. Cento e cinquenta minutos semanais de atividade aeróbica moderada reduzem a pressão sistólica em média de quatro a nove mmHg em hipertensos — um resultado comparável ao de alguns medicamentos em estágios iniciais.

Manter peso saudávelreduzir o consumo de álcoolparar de fumar e gerenciar o estresse crônico completam o conjunto de mudanças de estilo de vida com maior impacto sobre a pressão arterial.

Seguir o tratamento medicamentoso quando indicado. Quando o médico prescreve medicação para hipertensão, a adesão ao tratamento é fundamental — e um dos maiores desafios, já que a ausência de sintomas faz com que muita gente interrompa o remédio ao se sentir bem. A pressão controlada pelo medicamento não significa que o problema foi resolvido — significa que o tratamento está funcionando, e precisa continuar.

Uma verificação que pode salvar uma vida

Medir a pressão é um gesto pequeno, rápido e acessível. Custa poucos minutos numa farmácia, num posto de saúde ou com um aparelho doméstico. E pode revelar um problema que, descoberto cedo, tem tratamento eficaz e desfecho completamente diferente do que descoberto tarde.

A hipertensão não avisa quando está chegando. Mas você pode ir ao encontro dela — antes que ela chegue primeiro.

 

Fonte: Viver Notícia, Foto: Divulgação

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