Das 5h à 0h: empregada doméstica paraibana trocou o agreste pela vida cansativa na capital
Das 5h à 0h: empregada doméstica paraibana trocou o agreste pela vida
cansativa na capital
Valderei Costa, de 57 anos, trabalha como
empregada doméstica em Sobradinho
Por Mariana Menhô
Agência de Notícias CEUB
Todos
os dias, às 5h da manhã, enquanto Brasília ainda está sob sombras e motores, a
cozinha de Valderei Costa Gomes, de 57 anos, já funciona. Ela mora em
Sobradinho 2, na periferia do Distrito Federal. Sem tomar o café da manhã, suas
mãos organizam a mesa. Preparam os lanches dos netos Pedro e Flora e deixam
prontas as marmitas do filho, Samuel.
Não
resta uma colher suja na pia de casa antes que ela já tenha que atravessar a
porta e se encaminhar a outra cozinha, onde trabalha, como empregada doméstica,
a mais de 40 minutos de distância.
Faz
mais de quatro décadas que a rotina de Valderei deixou de se limitar ao quintal
cercado de varas, no bairro Bodocongó em Campina Grande, no agreste paraibano.
Nascida em uma família humilde, ela cresceu sob os olhares zelosos e rigorosos
dos pais, Aquimedes Muniz da Silva e Inácia Maria.
Na
infância, ela não ganhava brinquedos de presente. Por isso, ela se divertia com
ossos de animais e bolas de meia no chão de terra. Com sete anos de idade, a
menina já ia com o pai e os irmãos trabalhar na roça. Colhia algodão, milho e
feijão debaixo do sol nordestino.
Sua
história mudou de rumo quando, aos 16 anos, se casou com Zé Valdo e juntos se
mudaram para a capital do país, em 1983.
Chegar
em Brasília causou choque no novo casal, e junto veio a solidão e o preconceito
contra nordestinos.
“Não tinha nenhum filho ainda…
ficava muito tempo só”, lembra.
Porém,
a necessidade de um trabalho falou mais alto. Decidiu começar trabalhando em
outras casas.
Foi
sua irmã, Valmira, quem recomendou Valderei para trabalhar na casa da servidora
pública Sulamitha Barbosa. Rapidamente fincou raízes e construiu laços que vão
além das obrigações do contrato.
Depois
de deixar tudo em ordem em casa, ela segue para a casa de Sulamitha, onde fica
responsável por todo o lar.
Por
mais que em dias de faxina pesada o cansaço e as dores musculares a ataquem,
Valderei nunca vacila mesmo quando se atrapalha. Como no dia que trocou o sal
pelo açúcar no feijão, ela estava sobrecarregada e cuidava da mãe de Sulamitha
que estava recém-operada. “Depois eu fui rir sozinha. Ninguém viu. Botei açúcar
no feijão… Eu agoniada com ela lá”, conta, rindo da própria aflição.
Para
quem convive com ela, sua força e disposição impressionam, porém acendem um
alerta importante. Sua patroa, Sulamitha, descreve a funcionária com admiração
e preocupação.
“É uma pessoa sofrida, que
sempre trabalhou muito, desde a infância, que tem uma vida inteira dedicada ao
trabalho e à família, que gasta muito pouco ou quase nada do tempo dela com ela
mesma”, observa.
A
própria patroa pede que ela se cuide mais. “Gostaria muito que ela dedicasse um
pouco do tempo para se cuidar, se arrumar, passear, se achar bonita, não apenas
para o cuidado com os outros, pois ninguém é super o tempo todo, e um dia a
conta chega e quem vai cuidar dela?”, finaliza.
“A maior referência”
Daniele
Costa Gomes, filha de Valderei, enxerga a mãe como sua maior referência de
dignidade humana “Eu descrevo a minha mãe como uma mulher guerreira,
batalhadora, honesta, humilde, de um coração enorme”, afirma a filha.
“Me
ensinou que todo trabalho é honesto, independente de qual seja a profissão… A
atitude e a conquista, para mim, é uma conquista também, de sair do nada e não
ter nada, nem para comer direito, e conseguir evoluir”, desabafa Daniele.
Entre
o batente e a volta para casa, o sono de Valderei só chega por volta da
meia-noite, após realizar todos os afazeres de seu lar.
Ao
refletir sobre o que a faz feliz, ela revela uma necessidade totalmente humana
de afeto e reconhecimento.
A
jornada de Valderei é guiada pelo princípio que aprendeu ainda criança, sob o
forte sol do interior da Paraíba. “Respeito. Sabe? Que eu tenho muito respeito
com as pessoas e não pegar o que é dos outros, o que é dos outros é dos outros,
o que é meu, que eu ganho com meu esforço é meu”, finaliza Valderei.
Publicado originalmente: Jornal de Brasília







.png)
Nenhum comentário
Postar um comentário